terça-feira, 27 de novembro de 2007

Entrevista!

Aqui, a entrevista na íntegra com Eduardo Mattos, 50 anos, jornalista e editor do site de jornalismo participativo BrasilWiki!.



- Como começou o site?

BrasilWiki surgiu por iniciativa minha e de outro jornalista, José Aparecido Miguel. Trabalhamos juntos algumas vezes. No jornal O Estado de S. Paulo, no jornal Diário do Povo (de Campinas), na assessoria de comunicação social do governo do Estado de São Paulo e, muito recentemente, lançamos uma revista de atualidades, de distribuição gratuita, que circulou em Campinas, interior de São Paulo, cidade onde nos iniciamos profissionalmente. Quando desenhamos o projeto da revista, estudamos bastante o que vinha acontecendo no mercado de mídia, especialmente da Europa. A revista, lançada em 2004, foi inspirada no conceito de alguns pensadores de comunicação, segundo os quais a informação é um bem público e, como tal, as pessoas deixarão de pagar por ela no futuro. Já é assim em muitos países da Europa, o que explica o sucesso de jornais de distribuição gratuita como o Metro, 20 Minutos, Destak, Micalet, etc. Nos antecipamos a esse movimento com a revista, embora fosse uma experimentação prematura para o mercado brasileiro e, especialmente, para Campinas, naquela época. BrasilWiki foi inspirado no sucesso do OhMyNews, site coreano de jornalismo participativo. Claro que as peculiaridades da sociedade coreana determinaram a explosão do OhMyNews, que acabou até se internacionalizando. Mas achamos que seria importante trazer uma experiência como essa para cá, apesar do uso peculiar que o brasileiro médio faz da internet, para lazer e relacionamento.

- Quando o site entrou no ar?
O site foi ao ar experimentalmente, fechado a um grupo de testes, na primeira quinzena de outubro do ano passado. E foi aberto no início de novembro de 2006.

- Quem é responsável pelo que será publicado? Existe um editor ou alguém que controle o conteúdo das informações?

BrasilWiki tem quatro editores, todos jornalistas, que se revezam na edição dos textos. A rotina de trabalho é de uma mesa tradicional de edição de conteúdo online. O material que entra cai em uma gaveta de pendentes, de onde os editores pegam, editam e dão maior ou menor destaque de acordo com o que julgam ser mais importante naquele momento. Não nos preocupamos com o que os jornais tradicionais chamam de agenda. Se fizéssemos isso, correríamos o risco de ser parecidos com eles. E, assim, sermos apenas mais um site da indústria de comunicação. O que vale, no BrasilWiki, é uma boa história, um bom texto. Pode ser tanto uma opinião sobre as declarações do governador do Rio, Sergio Cabral Filho, sobre o aborto, quanto uma crônica sobre as razões que levaram um jovem de 28 anos a se casar com uma senhora de 80. Os jornais tradicionais, hoje, são todos muito parecidos entre si. Se você pegar as capas dos quatro maiores - Estado, Folha, Globo e JB - em qualquer dia da semana, perceberá que 80% dos assuntos são iguais. E que quase 100% desses assuntos são da agenda oficial do poder público: presidência da República, ministérios, governos de Estado, secretarias de Estado, etc. Se nos pautássemos por eles, seríamos apenas mais um. Valorizamos muito a vida real. Mas é evidente que o noticiário, de uma maneira geral, acaba estimulando as pessoas a escrever. Mas ele não é determinante.
Nos textos postados por autores cadastrados em BrasilWiki, os jornalistas procuram mexer o mínimo possível, de maneira a resguardar o maior nível possível de originalidade. Os ajustes feitos são de grafia, pontuação, acentuação, concordância verbal, etc. Nunca uma opinião é mudada. Eventualmente um texto pode ser alterado para tornar mais claro o que o autor pretende expressar. Nos textos de comentários, não temos a opção de fazer essas correções. Seria necessário um exército de jornalistas para isso. Assim, na área de comentários é mantido o texto no formato original. Só é avaliado se ele está dentro do código de conduta do BrasilWiki. Se não estiver, é simplesmente excluído.

- Quantas pessoas colaboram com o site? E quantas notícias por dia, em média, são postadas?

BrasilWiki tem hoje, final de novembro de 2007, pouco mais de um mil wiki repórteres cadastrados. Os acessos únicos ultrapassam a marca de 60 mil. Em média, são postados dez textos por dia.

- Ainda existe muita diferença entre o que se faz aqui no Brasil e o OhMyNews da Coréia do Sul?

O OhMyNews se destaca por publicar notícias. O colaborador vê uma colisão entre dois carros e reporta. BrasilWiki tem outro tipo de abordagem. Mais de 90% dos textos postados aqui são opinativos. São pontos-de-vista sobre as mais variadas coisas. Diante disso, em BrasilWiki não se censura conteúdos, a menos que ele não se encaixe nos códigos de conduta definidos por nós. Não publicamos textos homofóbicos, de incitação à violência e apologia às drogas, entre outros. Mas convivem aqui esquerdistas e direitistas, conservadores e liberais. Acho que no Brasil talvez não consigamos ter um impacto tão grande quanto o OhMyNews por conta da falta de educação das pessoas e do uso médio que elas fazem da internet, como já disse, relacionamento e lazer.

- Como podemos ter a noção da repercussão do que é publicado no site?

É difícil mensurar. Às vezes a repercussão de um texto nos surpreende. Críticas feitas a algumas personalidades foram notadas por ela, que pediram espaço para réplica. Percebemos, pela análise dos acessos ao site, que gente de instituições públicas - como ministérios e governos de Estados, acessam o site. Reclamações de consumidores em relações comerciais têm sido resolvidas.

- Esse tipo de Jornalismo ameaça o tradicional?

São coisas muito diferentes. O jornalismo praticado pela indústria de comunicação é um negócio. Os jornais vendem informação. Mantêm uma linha de produção de notícias que são vendidas. Aqui não. As pessoas escrevem o que pensam sobre as mais variadas coisas. É um espaço aberto para a livre expressão. A indústria da comunicação continuará a ser o que sempre foi, não necessariamente usando as plataformas atuais - especialmente o papel - e o jornalismo participativo contribuirá para a diversidade de opinião que não existe na mídia tradicional.

- Quais os maiores benefícios que ele traz para os leitores ou usuários da internet?

Eu acredito que o maior benefício está exatamente na possibilidade de permitir pluralidade. Os jornais não permitem, as emissoras de rádio e TV também não. Dizem que são plurais, mas não são. Eu conheço bem este meio, me formei nele. A indústria de comunicação defende o interesse e o ponto-de-vista de seus donos. E isso é normal no capitalismo. Essa coisa da parcialidade é uma bobagem. Você já viu um banqueiro ser imparcial ou a Volkswagen ser imparcial? Eles visam o resultado deles próprios. Os jornais são assim. Como trabalham com uma matéria-prima diferente, que são as idéias, além de se preocuparem com os resultados financeiros - como os bancos ou a Volkswagen, que citei de exemplos - preocupam-se também em formar massas de opiniões e exercer influência. Isso acontece em todo o mundo.

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Grupo Jornalismo Cidadão: Aloha Boeck, Carlos Eduardo da Silva Pereira, Daiane Vasconcellos e Henrique Weber

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